COMUNICAÇÃO POLÍTICA – O FUNDAMENTALISMO
Face à corrente constatação focada nos extremistas Islâmicos, este artigo pretende desmistificar algumas asserções associadas ao fundamentalismo. Os fundamentalistas religiosos nem são restritos a qualquer crença ou país, nem apenas aos pobres ou iletrados. Mas, são aqueles que emergem a qualquer momento e local, que sentem a necessidade da luta por uma cultura secular, ateia – mesmo que para tal fim, tenham que deixar para trás a ortodoxia de todas a suas tradições. Na realidade, fundamentalistas por todo o lado partilham uma habilidade em comum, ou seja, a criação de mensagens apropriadas ao seu tempo.
Todo o fundamentalismo é religioso. Podemos dizer que variadas organizações partilham características básicas dos fundamentalistas religiosos, inter alia: instituem limites, exigem obediência incondicional de todos, consomem avultadas energias na administração e manutenção de barreiras entre o devoto e o ímpio, e constroem fortalezas secretas e dogmáticas envolvendo “a verdade”; afirmando a sua versão como absoluta, infalível, ou inerrante. Por vezes, procuram manifestações do “fundamentalismo secular” nas diversas tendências envenenadas em nacionalismo; ou no extremismo ideológico dos movimentos revolucionários ou terroristas, desde o Baader-Meinhof Gang até ao Shining Path de Peru. Num estilo similar, podíamos até falar de “fundamentalismo científico” para sugerir a suposição, abordada pelos cientistas modernos, e filósofos, que o conhecimento empiricamente baseado é o único e seguro caminho para “a verdade”.
O fundamentalismo não é restrito ao monoteísmo. Tal como outra importante religião da Ásia meridional, o siquismo, que produziu a sua equidade de candidatos à família dos fundamentalistas, estas grandes tradições de crença e prática orientam discípulos para uma realidade (ou irrealidade) que transcende ou interpreta ilusório o mundo mundano. Variadas religiões produziram poderosos, contra-secular, contra-modernismo, absolutistas, exclusivistas, e geralmente movimentos violentos, cuja semelhança se aproxima ao fundamentalismo do mundo Judaico, Cristão, e Islâmico.
O fundamentalismo atrai ricos e pobres. Os quadros islâmicos estão repletos de pessoas das mais variadas origens e educação, incluindo descendentes de famílias abastadas, muitos deles doutorados pelas universidades Ocidentais. Mohammed Atta, o estudante baseado em Hamburgo, que aprendeu a pilotagem de aeronaves, em preparação para o voo fatídico n.º 11 da American Airlines (que colidiu contra a torre Norte do World Trade Centre, “Sept 11, 2001”) é típico do fundamentalista dos nossos dias – o iletrado, homem do campo, não é, certamente.
O fundamentalismo conduz à violência? Não, necessariamente. O contexto social, a cultura política regional ou local condicionam a direcção e objectivos do fundamentalismo. Entre os estados Islâmicos, ou temos lideranças fracas, ineptas, e decadentes ou então, repressivas, prepotentes, e ditatoriais. Em ambos casos, estamos em presença de variantes que fomentam, e encorajem o fundamentalismo violento, dedicado, e focado na destruição, substituição e mudança radical do estado (como os “taliban” fizeram no Afeganistão) ou na remoção total do poder (como os xiitas o perpetraram no Irão, e os grupos islâmicos radicais o esperaram praticar no Egipto, Arábia Saudita, e Argélia).
Os fundamentalistas fomentam a mudança. Eles querem mudar o mundo que eles vêem como um mundo ateu, mas a sua terapia não é preservar ou recriar o passado. Eles vivem num mundo, materialista, moderno, e técnico, porém, ao mesmo tempo, actuam na desvalorização dos conceitos que promovem a desumanização, e a filosofia materialista e hipocrisia ocidental, aliás, temas ardentemente defendidos desde sempre, pelos membros da organização “al Qaeda”. Da mesma forma, Sayyid Qutb, o eminente ideólogo da Irmandade Muçulmana antes da sua execução pelo Presidente Abdel Nasser em 1966, no Egipto, asseverava que as sociedades Muçulmanas tinham descendido ao estado de “jahiliyya” (pré-Islâmico barbarismo e ignorância). Uma das suas asserções visava testar, e separar individualmente o verdadeiro devoto do ímpio, do infiel, e assim justificar uma derradeira “jihad” contra o último: o conceito “jihad”, a luta do devoto contra as suas paixões profanas, transformou-se numa guerra externa a todos os infiéis. Os fundamentalistas não se opõem à mudança; eles especializam-se nela.
By John Fonseca-Robbins
Sept 2002